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Os dias no QG da Glória − Capacete Rio de Janeiro 2013

abril 16, 2013

A primeira intenção tinha um sentido místico, sem necessariamente apelar para o lado religioso, mas achamos por bem fazer uma moqueca baiana para iniciar a residência no Capacete. Rua do Russel, 300, nosso endereço por dois meses. Foi ótimo, pois significava bom presságio. A cozinha da casa havia nos aceitado e isso, para nós, é fundamental, já que possuímos uma forma bem definida de criação em que a culinária ganha status de burocracia e a cozinha de escritório. Essa maneira de operação de ideias tem nos acompanhado desde que nos conhecemos por GIA.

Mandinga conceitual realizada, os louros começaram a aparecer. Em função do projeto de um grande amigo, iniciamos a residência com uma experiência de ordem culinária. É necessário dizer que, além da comida, a amizade é um elemento importante para o processo de criação do GIA. Organizou-se na casa o projeto cozinha internacional, no qual todas as quintas-feiras à noite recebemos grupos de artistas, arquitetos, desocupados necessários, dançarinos amadores e comilões de natureza para saborear quitutes de todo o canto do mundo, além de conversar de tudo.

Os jantares são importantes, pois ressaltam o conceito de residência que pensamos. Residir, morar, cuidar. Pode parecer estranho para um grupo que tem a rua como suporte de realização dos trabalhos de arte, mas esse ponto de vista não tem procedência. Sempre usamos o espaço casa como local de criação, sempre em volta do fogão, com muito samba e amigos e não poderia ser diferente no Rio, pooorra! As ações são para a rua, a lapidação de sua execução a cozinha.

Será desnecessário falar sobre as ações que estão sendo realizadas − este pequeno texto quer tratar do conceito de residência, de um lugar mais afetivo. Sendo assim, nosso processo de absorção tem sido muito orgânico em relação ao dia a dia de moradores e não de turistas. Tem sido fundamental o reconhecimento da vizinhança mais próxima, pessoas que já interferem no dia a dia da cidade, como o entregador de água que produz vídeos – Fala My Brother -, a feira de orgânicos da frente do prédio que chuta a canela de modelos menos inteligentes de postura alimentar. A identificação que os nordestinos têm conosco, e assim vai… Coisas da vida, que acontecem… Viva Batatinha. Falando em Batatinha, não precisou andar muito para dar samba. Na mesma praça da feira de orgânicos topamos com uma roda, Sambastião, por causa do padroeiro e da estátua instalada na mesma praça, bendita moqueca!

Já estamos acostumados a experiências de convívio criativo. Aliás, desde o nosso QG do Santo Antônio, em Salvador, a nossa residência na Bahia, a amizade é realmente primordial para a amálgama do grupo. Fator que torna essa residência redundante. Se alguém esperava algo diferente do que já somos, a continuidade de nossa vida cotidiana, sejamos otimistas, pois isso denota uma sintonia de nós com a casa, com o espaço. Uma excelente biblioteca, uma vista maravilhosa, ressaltando uma belíssima árvore, que rompe com a gravidade e nos olha no fundo dos olhos, se coloca na mesma altura de nossos seis andares. A cozinha dispensa apresentações. O resto não importa, mas sem dúvida merece elogios. Impossível dizer quantas pessoas já passaram por aqui − o mesmo pode-se dizer do QG da Bahia. Sendo assim a mais crua realidade é melhor dizer: estamos em casa.

Coletivo GIA

 

fevereiro 27, 2013

studio uk lenhardt 2

Vim para a Inglaterra com um sentimento de lacuna a preencher, por um tempo desejei desenhar, imaginei que o Gasworks Studio seria o lugar e o tempo em que retomaria e desenvolveria algumas experimentações com desenho.

Chegando aqui, revi por acaso uma entrevista de Clarice Lispector em que, entre outras coisas muito diretas e sem meios termos, disse estar vazia ao terminar um trabalho. Isso me chamou a atenção; e o fato de ela dizer que não era profissional me apaziguou com a sensação de não saber o que fazer, mas saber que não poderia ficar sem fazer nada, porque adoeceria.

Estar esvaziado é como uma onda que passou e levou com ela tudo que a faz agir durante determinado tempo; eu me senti nu, com frio, mas ao mesmo tempo livre. Não tinha obrigações e resolvi amar o nada.

Retomar o desenho foi encontrar uma tarefa simples como desculpa para acordar, tomar banho e ir ao Studio todos os dias.

Agarrar um papel, um lápis, um pincel, e rever o que fazer com os aparelhos de  TV. Então minha rotina foi essa, tentar através do desenho descobrir mais a respeito de PLANALTO, uma ideia/pensamento que venho desenvolvendo com relação à transição entre planos. Observar o teor ambíguo que as proposições apontam e resguardá-las, ou seja, permitir que os sentidos continuem abertos, indefinidos.

Seguindo neste caminho, comprei um The Guardian e resolvi transformá-lo num manto (copiando Lygia), na tentativa de me aquecer um pouco nas primeiras gélidas semanas aqui. Eu o colei-o todo e, inesperadamente, ele se transformou em um quadrado; pintei-o de preto para dar força à forma, depois dobrei três vezes e ele virou um triângulo. Repeti o gesto mais três vezes.

Senti que a passagem de uma dimensão para outra me sugeria volume e desenhei uma espera como projeto, para um dia construí-la em concreto e oca, para que o corpo entre, lá dentro o som da voz reverbere e algo mais aconteça.

Depois precisei criar tramas e grades de desenho como ferramenta de escala ou de estampa — talvez fosse o jeito de tentar entender pela ação  a rigidez da educação inglesa, a noção de compromisso tão cedo aprendida.

Nesse espaço que começava a ser descoberto, outro personagem se manifestou e resolveu espiar e impor sua presença sedutora, negra e peluda, e eu abri a guarda. Isso depois do encontro com a raposa na neve à noite. Sempre é bom ter um bicho à espreita.

Um outro personagem tem corpinho, é boneco, é referente ao plano gráfico descritivo, compartilha a medida dos desenhos, tal como faces que atingem por condições topológicas a grafia de sua própria matéria.

O desenho é todo o campo, campo/tabuleiro, área em branco. O desenho é figura e é projeto, é abstração e é forma.

Cristiano Lenhardt, Londres, 27 de fevereiro de 2013.

novembro 26, 2012



O resultado da residência realizada no JA.CA durante os meses de agosto e novembro de 2012  se chama O NOVO MONUMENTO. Um filme que acompanha a transposição de um monumento no autônomo distrito de Jardim Canadá em algum momento do século XXI que não sabemos precisar ao certo. O evento de transposição foi precedido por uma série de atos comemorativos. O primeiro deles foi um ritual de dança.

Luiz Roque,
Minas Gerais, Brasil
Novembro de 2012

setembro 21, 2012

por Luiz Roque

Desde meu último post, andei às voltas com ideias, lugares e situações sobre o projeto que irei realizar aqui no JA.CA. Não tenho vontade de transformar os meus relatos aqui no blog em um “diário de bordo” da produção que devo estar filmando em, mais ou menos, um mês. Bom, um filme, curto e em Preto & Branco. Já me sentei algumas vezes na frente deste computador e fiquei olhando para este tracinho piscante do digitador de texto como a Carrie Bradshaw em Sex and the City, impassível e com uma carteira de Marlboro Light ao lado.

Se não falo aqui do assunto propriamente dito do meu projeto, falo do lugar onde vivo, que é também o assunto e que me provoca diariamente. Como já comentei, o Jardim Canadá é um retrato bem pertinente do Brasil: os preços dos imóveis sobem na casa da dezena percentual e, ainda assim, estão em constante ocupação comercial. Quando cheguei, o terreno ao lado da residência era coberto por uma mata fechada; hoje está limpo, aplainado e à espera de uma obra que deve começar enquanto eu estiver aqui. O estado em que o bairro está agora (mezzo ocupado, mezzo abandonado e semi-habitado) talvez permaneça exatamente igual daqui a 50 anos. Haverá um grande ciclo de progresso – o que irá expulsar a população local que não tiver condições de pagar os novos contratos de aluguel – e depois uma nova recessão, após a qual restará quase ninguém. Posso estar sendo pessimista, criando uma tendência fictícia bem própria de filmes que se valem de paisagens áridas para a construção de sociedades apocalípticas, o que é bem provável. No entanto, a evangelização da política no Brasil é algo aterrorizante e creio que esse panorama de retrocesso intelectual torna qualquer desenvolvimento sustentável difícil. O cenário é bem preocupante.

Mas, como em uma boa série de TV americana, coincidências acontecem para deixar a trama mais atraente. Junto comigo aqui no Jardim Canadá chegou a nova assistente de produção, Flaviana, uma menina linda, dessas pelas quais as câmeras se apaixonam.

El Luche

setembro 1, 2012

por Luiza Baldan

 

 

O pistoleiro Maicol Poblete, olhos verdes e aproximadamente 30 anos, anda sempre acompanhado de quatro comparsas, entre eles, o famoso Chano Maricón. Com seu bando, o malandro circula pela zona plana da cidade de Valparaíso, mais precisamente no entorno da aduana e da Igreja Matriz, aterrorizando moradores e transeuntes. Contam que roubou um caminhão de gás no Caminho Cintura, além de muitos outros delitos envolvendo violência. Digamos que o prontuário do rapaz é extenso. Não se sabe se foi detido no passado, mas a denúncia anônima que recebemos em um papelzinho escrito por mãos trêmulas à esferográfica azul é um sinal de que precisa ser capturado de uma vez.

Quando sucedeu o roubo, os xingamentos saíram em todos os idiomas, mas ninguém interceptou o Poblete nem a sua gangue, que rapidamente se dispersou entre a multidão que transitava pela Rua Cochrane às 15:00h. Comerciantes observaram atônitos desde janelas e calçadas, murmurando em silêncio “lá se vai mais uma vítima del cabrón, hijoeputa, conchatumadre“. O mal-parido correu justamente o necessário para subir a rua Cajilla e se perder nos meandros do seu bairro, próximo à delegacia de investigações, a chamada P.D.I..

Foi justamente neste distrito que um policial registrou o ocorrido e recebeu dois dias mais tarde a acusação sem remetente. O oficial, que carrega o mesmo sobrenome Poblete, quando não está engomado em um terno negro despachando no interior da chefatura, usa farda camuflada sobre uma motoca alviverde numa versão guerrilheira de funcionário burocrata. Diante do bilhete amassado, se limitou a esboçar um sorriso condescendente, ambíguo, sem indicar qualquer espanto, porque além de conhecer a quadrilha, sabe o lugar exato onde os cinco pilantras se escondem. Caso não esteja mancomunado com eles, pode ser que faça uma batida em busca dos bens furtados, dando-lhes uma prensa para descobrir o paradeiro final da câmera fotográfica.

Após a ocorrência, viaturas de distintos portes se anunciaram em todos os cantos da praça, mas foram abafadas pela sirene do navio que atracava no porto ao cair da tarde. É quase impossível não se deter nestes roncos periódicos, muito mais poderosos que as campanadas da igreja, mas não menos ensurdecedores que o canto das gaivotas, que, sempre em bando, tumultuam o que há pelo caminho. Passado o frisson, foram os assovios e os alarmes dos automóveis que tomaram conta, enquanto Poblete desaparecia pelos confins da cidade.

Sem maiores novidades sobre o caso, alguns moradores se reuniam na praça para comentar o ocorrido, todos anônimos falando em código. Um batizado se celebrava na Igreja, entre familiares e fotografias, e a paz reinava até outra moça ser atacada por dissidentes de Poblete e Chano. Muitos correram pela rua da Matriz em vão.

A partir de agora, todos os que passam pela rua Santo Domingo parecem suspeitos. Busca-se um infrator que não tem medo da lei nem da língua afiada dos seus vizinhos. O cidadão se esquece que vive em uma comunidade latino-americana, seguidora das telenovelas e dos finais felizes, em um bairro onde a igreja alimenta seus fiéis menos abastados e os cachorros tomam sol diariamente em praça pública. Se aos olhos de Deus somos todos iguais, aos olhos do próximo, Maicol Poblete é o demônio.

A caçada ao bandido começa na Matriz e evolui em direção a Viña del Mar. A velocidade da fuga contrasta com o ritmo pacato da cidade, em particular com o do trem mais lento do mundo, estacionado no Paseo Weelright, um pouco depois do Muelle Barón. Suas carcaças, que algum dia foram vagões, são vistas de longe, abandonadas em forma de ferro-velho. As três composições, sucumbidas à maresia, guardam histórias de todos os tipos, dos viajantes que ali passaram, aos mortos que ainda se homenageiam com animitas floridas. Retratos 3×4 de personagens inominados decoram paredes e seus rostos desconhecidos ganham títulos e frases de amor. Até algum parente do Poblete poderia estar figurado naquele mosaico de fantasmas anônimos.

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Encontrei o trem mais lento do mundo quando corria pelo Paseo Weelright na tarde do domingo 22 de julho. Daquilo que parecia um pesadelo, entre pichações e vidros quebrados, se ouvia Clair de Lune, de Debussy. Uma placa anunciava a venda de café e chá, o que me encorajou a subir as escadas enferrujadas. Lá de cima, o mar se via, se ouvia e se sentia por todas as janelas, enquanto o metrô que ainda parte rumo a Limache buzinava veloz nos trilhos ativos da ferrovia. Em um canto iluminado pelo sol filtrado por cortinas vermelhas, notas musicais saíam de um piano vertical alemão pelas mãos de um filósofo colombiano. Não era para menos a internacionalidade do momento, considerando um comboio que jaz diante de um dos portos mais importantes da História da América do Sul. O trem é o mais lento do mundo porque está ancorado no tempo. Ao embarcar, fui transportada a um passado impossível de localizar, em suspensão, distanciando-me quase que de imediato da realidade em que estava imersa. Não percebi a noite chegar nem a aproximação de outros curiosos como eu. Só acabou o feitiço quando o piano calou.

Um chileno de descendência basca, Carlos Albarracín, mora no trem e oferece aulas de música, ali mesmo, na ferrovia em frente ao mar, entre as histórias que só alguns poderiam contar. O único piano com que tive contato na vida foi o do meu pai, que também se chamava Carlos e circulava entre pescadores. Nunca aprendi o instrumento, mas naquele vagão, sem referências claras do tempo local e protegida dos contraventores que me afligiam, comecei a tocar. No piano, que em italiano significa “suave”, as recordações brotavam em turbilhão e as imagens jorravam pelos dedos incapazes de reproduzi-las corretamente. Sem métrica certa, a lógica não era a da completude da ação, mas a do gesto, a da aprendizagem pouco didática conduzida por um senhor de nome Carlos, que pouco a pouco me apresentou uma nova possibilidade de viver Valparaíso.

Da rotina fez-se um ritual, de caminhadas extensas pelo cais, percorrendo dia após dia um mesmo caminho com cheiro de peixe e canto de gaivota, que de ensurdecedor fez-se melódico. Centenas de passos em silêncio para deixar-me arrebatar pela experiência. A contínua contemplação de uma paisagem repetida que permite admirar o corriqueiro como extraordinário. Mas o decorrer da prática musical carecia de sensibilidade semelhante à que me levava ao piano diariamente. Faltava disciplina e entendimento entre as partes. O instrumento ficou curto e congelado, anunciando a chuva e atualizando o tempo, de modo a reassentar tudo em seu devido lugar. De algum modo, as cortinas do comboio se fecharam e as luzes se acenderam para que eu pudesse desembarcar.

Quando acabou o temporal, senti um enorme vazio por reconhecer a perda. Minhas histórias foram somadas a tantas outras que estavam esquecidas no trem e não mais me pertenciam. Mas percebi que os acordes que aprendi não eram apenas melancolia e que através deles poderia inventar e recontar histórias com notas que dispensam tradução. Consegui registrar imagens mesmo sem minutá-las visualmente. Se me roubaram um olho, me deixaram os ouvidos. E a partir deste entendimento a prática ganhou força novamente, sem grandes devaneios ou atmosferas oníricas, se expandindo pelas ruas da cidade que haviam se perdido no princípio da viagem.

Em cada cruzamento de Valparaíso encontrei tons, do popular ao erudito, em vozes, alto-falantes, pregoeiros e instrumentos de todos os tipos, provenientes de distintas partes do mundo, que chegaram até aqui pelas mãos de residentes e turistas, modificando por completo a paisagem urbana. Mariposa e Alejandro, Milca e Mauro, Fernando e Soledad, Gonzalo e Juan Carlos, Jorge e Claudio, Mati e Nico, Pablo e Carlos, Rosario e Daniel são apenas alguns dos muitos personagens que constituem o extenso mapa sonoro que ilustra e indica caminhos na cidade.

Dos músicos que conheci, me apeguei especialmente a Catalina Jiménez Torres, pianista de personalidade ímpar, que eu jamais poderia descrever na bidimensionalidade de uma fotografia. Nos conhecemos no Café Passeo, na Plaza Anibal Pinto. Entre um chá, uma cerveja e alguns cigarros, falamos um pouco das nossas vidas ou o suficiente para que eu confiasse nela como parceira na empreitada de aprender a tocar piano em um mês. Foi ela quem me ensinou, sem paternalismos, a me apoderar do instrumento, fazê-lo meu, senti-lo, tocá-lo. Pus de lado o universo colorido das artes visuais para mergulhar em teclas pretas e brancas onde não mais podia controlar o tempo e sim respeitar o que me era determinado. Com as mãos ainda tensas e tímidas, aprendi a relaxar para que os dedos fluíssem com mais destreza e pudessem adquirir a firmeza característica para o soar das notas.

Aos poucos, entre caminhadas e encontros, comecei a colecionar, através do som, paisagens e retratos. Gravei o ruído das ruas e pedi a músicos que compusessem cinco segundos em compassos de quatro quartos para que eu pudesse tocar. Como um jogo de amarelinha, que aqui chamam de el luche, fui recolhendo a cada passo um fragmento que, quando reunidos em uma só partitura, representariam uma das muitas possíveis leituras de Valparaíso.

Na dinâmica de ser guiada através da sonoridade dos habitantes daqui, conheci todo tipo de gente, lugar, história e nostalgia. Esses registros, quando transcritos à música, foram distanciados dos pormenores subjetivos de ressentidos, positivistas, esquerdas ou direitas, mantendo a imagem descritiva do instante em que foram gravados. Certa vez, na esquina de Templeman e Almirante Montt, fui obrigada a girar o pescoço e segurar o passo porque Claudio tocava um realejo com seu papagaio Pepe, desacelerando pedestres e atribuindo rosto às pessoas. Em outra ocasião, pela janela de casa, vi Jorge tocar o violino na sua sala a apenas 5 metros de distância da minha. Em todos os casos, a música proporcionou a percepção visual do momento e agora faz questão de recordá-lo a cada vez que é tocada novamente. A canção estimulou os sentidos, disfarçou a vergonha e promoveu a reunião entre desconhecidos. O som antecedeu o encontro e faz permanecer a imagem.

            Com a transferência da visualidade ao som, criei El luche, que é uma obra composta não apenas por timbres, mas também pela ausência dos mesmos, pelos silêncios e pelas tantas notas prometidas que nem sequer foram escritas. Na peça estão pessoas e lugares que conheci, entre amigos e amores, fracassos e alegrias, mirantes e paisagens, reunidos em fragmentos dissonantes, que desrespeitam a lógica harmônica de uma canção, em pulsos variados dispostos lado a lado, privilegiando a ordem da lembrança para recontar a mim mesma as experiências que tive nesta cidade. As partes se organizam praticamente sozinhas, evidenciando rupturas e encadeamentos felizes no encontro entre as notas. Cada grupo de compassos me leva ao dia em que conheci aquele que soa no piano. Com a colaboração de Catalina, existe hoje uma partitura produzida em Valparaíso que pode ser tocada a qualquer momento, por qualquer pessoa, em qualquer lugar, e que é o único registro imagético físico do projeto para além destas palavras.

Compor uma partitura reunindo imagens é como juntar partes de uma história inacabada, impossível de ser reconstituída linearmente. Como em el luche, de casa a casa joga-se a pedrinha para chegar ao céu, sabendo que é preciso voltar para buscar a mesma pedrinha e continuar jogando. Tocar a obra diante do público, em um teatro com 100 anos de existência, é uma maneira de contar essa história inacabada, reverberando-a no seu lugar de origem, para que passe também a pertencer à história da cidade.

Lembro-me da melancolia ao deixar o trem e reconheço o luto naquele ato, a partir do qual, felizmente, pude dar sequência aos capítulos desta viagem, que transcende a geografia e se imaterializa através da obra.

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El pistolero Maicol Poblete, ojos verdes y aproximadamente 30 años, siempre va acompañado de cuatro comparsas, entre ellos, el famoso Chano Maricón. Con su bando, el bandido circula por la zona plana de la ciudad de Valparaíso, más precisamente por el entorno de la aduana y la Iglesia la Matriz, aterrorizando moradores y pasajeros. Dicen que robó un camión de gas en el Camino Cintura, además de otros tantos delitos violentos. Por lo que cuentan, el historial del delincuente es extenso. Nadie sabe ciertamente si lo detuvieron en el pasado, pero la denuncia anónima que recibimos en un papelito escrito por manos nerviosas con bolígrafo azul era una señal evidente para que lo capturen de una vez.

Cuando sucedió el robo, los insultos salieron en todos los idiomas, pero nadie interceptó al Poblete ni a su pandilla, que rápidamente se dispersó entre la multitud que transitaba por la calle Cochrane a las tres de la tarde. Comerciantes observaron atónitos de ventanas y aceras, murmurando en silencio “allí va otra víctima más del cabrón, hijoeputa, conchatumadre”. El mal parido corrió justo lo necesario para subir la calle Cajilla y perderse por los meandros de su barrio, próximo a la comisaría de investigaciones, la llamada PDI.

Justo en esta jefatura, el policía que registró lo ocurrido y recibió dos días más tarde la acusación sin remitente, también se apellida Poblete. El cual, cuando no está en su traje negro despachando en el interior de la oficina, va por las calles usando un uniforme de camuflaje montado en una moto blanca y verde, en versión guerrillera de funcionario burócrata. Delante del papel amasado, se limitó a esbozar una sonrisa condescendiente, ambigua, sin indicar ningún espanto, porque además de conocer a la cuadrilla, sabe el sitio exacto donde se esconde. Y si acaso no esté mancomunado con ellos, podrá incluso hacer una búsqueda en el lugar por los bienes hurtados, dándoles una paliza para descubrir el paradero final de la cámara fotográfica.

Tras lo ocurrido, carros policiales de distintos portes se anunciaron en todos los rincones de la plaza, pero se callaron al sonido de la sirena de un barco que atracaba en el puerto al caer de la tarde. Es casi imposible no detenerse frente a estos ronquidos periódicos, mucho más poderosos que las campanillas de la iglesia, pero no menos ensordecedores que el canto de las gaviotas que, siempre en bando, estremecen lo que hay en medio. Pasado el tumulto, sólo silbatos y alarmas de coches se oían, mientras Poblete desaparecía por los confines de la ciudad.

Sin grandes novedades sobre el caso, algunos habitantes se reunieron en la plaza para comentar el tema, todos anónimos hablando en código. Un bautismo se celebraba en la iglesia, entre familiares y fotografías,  la paz parecía reinar hasta que otra mujer fuera atacada por colegas de Poblete y Chano. Muchos corrieron por la calle de la Matriz en vano.

De ahora en adelante, todos los que pasan por la calle Santo Domingo nos parecen sospechosos. Se busca un infractor que no teme la ley ni la lengua afilada de sus vecinos. El ciudadano se olvida de que vive en una comunidad latinoamericana, seguidora de las telenovelas y de los finales felices, en un barrio donde la iglesia alimenta a sus fieles menos favorecidos y los perros toman sol diariamente en la plaza pública. Si a los ojos de Dios somos todos iguales, a los ojos del hermano Poblete es el demonio.

La caza al bandido empieza en la Matriz y sigue en dirección a Viña del Mar. La velocidad de la fuga contrasta con el ritmo pacato de la ciudad, en particular con el tren más lento del mundo, aparcado en el Paseo Weelright, un poco después del Muelle Barón. De lejos se avista lo que queda de los vagones abandonados, chatarras carcomidas por el aire del mar. Allí se encuentran historias de todos los tipos, desde los viajeros que pasaron, hasta los muertos que aun se homenajean con animitas floridas. Retratos 3×4 de personajes incógnitos con rostros desconocidos adornan paredes y ganan títulos y frases de amor. Incluso algún pariente de Poblete podría figurar en aquél mosaico de fantasmas anónimos.

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Encontré el tren más lento del mundo cuando trotaba por el Paseo Weelright en la tarde del domingo 22 de julio. De lo que parecía una pesadilla, entre graffiti y cristales rotos, se oía Clair de Lune, de Debussy. Una placa anunciaba la venta de café y té, con lo cual me animé a subir las escaleras oxidadas. De arriba se veía, se oía y se sentía el mar por todas las ventanas, mientras pasaba veloz el ferrocarril que sigue funcionando rumbo a Limache. En un rincón iluminado por el sol filtrado por cortinas rojas, notas musicales salían de un piano vertical alemán por las manos de un filósofo colombiano. No sorprende la internacionalidad del momento considerando un convoy tumbado delante de uno de los puertos más importantes de la historia de la América del Sur. El tren es el más lento del mundo porque está anclado en el tiempo. Al embarcar, fui transportada a un pasado imposible de localizar, en suspensión, distanciándome casi que de inmediato de la realidad en que estaba inmersa. El hechizo era de un tamaño que no percibí que se hacía de noche y que otros curiosos también se habían acercado. Sólo me enteré cuando el piano se calló.

Un chileno de descendencia Vasca, Carlos Albarracín, vive en el tren y ofrece clases de música, allí mismo, en la ferrovía frente al mar, inmerso en todas las historias que allí tuvieron lugar. El único piano con que tuve contacto en la vida fue el de mi padre, que también se llamaba Carlos y convivía entre pescadores. Nunca aprendí a tocar el instrumento, pero en aquél vagón, sin referencia clara del tiempo local y protegida de los criminales que me afligían, empecé a tocar. En el piano, que en italiano significa “suave”, los recuerdos brotaban como un torbellino y las imágenes me chorreaban por los dedos incapaces de reproducirlas fielmente. Sin la métrica correcta, no me importaba cumplir la acción, pero perdurar el gesto, el aprendizaje poco didáctico conducido por un señor de nombre Carlos, que poco a poco me introdujo una nueva posibilidad de vivir Valparaíso.

De la rutina hice un ritual, de caminatas extensas por el muelle, recorriendo día tras día un mismo camino con olor a pescado y canto de gaviota, que de ensordecedor se hizo melódico. Centenas de pasos en silencio para dejarme arrebatar por la experiencia en una continua contemplación de un paisaje repetido que permite admirar lo cotidiano como extraordinario. Pero el transcurso de la práctica musical carecía de sensibilidad semejante a la que me llevaba al piano diariamente. Faltaba disciplina y entendimiento entre las partes. El instrumento se quedó corto y congelado, anunciando la lluvia y actualizando el tiempo, de modo que todo se reasentó en su sitio de origen sin más disparates. De alguna manera, cerraron las cortinas del convoy y prendieron las luces para que yo pudiera bajar.

Cuando se terminó el temporal, sentí un enorme vacío por reconocer la pérdida. Mis cuentos se sumaron a tantos otros olvidados en el tren y no más me pertenecían. Sin embargo me di cuenta de que los acordes no eran sólo melancolía y que con ellos podría inventar y volver a contar historias con notas que no requieren traducción. Conseguí registrar imágenes aún sin hacerlo visualmente. Si me robaron un ojo, me dejaron los oídos. Y con esta percepción, la práctica ganó fuerza una vez más, sin grandes devaneos o atmósferas oníricas, extendiéndose por las mismas calles donde me había perdido en el inicio del viaje.

En cada cruce de Valparaíso encontré tonos, desde el popular hasta el erudito, en voces, alto-parlantes, pregoneros e instrumentos de todos los tipos, provenientes de distintas partes del mundo, que llegaron hasta aquí por las manos de residentes y turistas, modificando por completo el paisaje urbano. Mariposa y Alejandro, Milca y Mauro, Fernando y Soledad, Gonzalo y Juan Carlos, Jorge y Claudio, Mati y Nico, Pablo y Carlos, Rosario y Daniel son sólo algunos de los muchos personajes que constituyen el extenso mapa sonoro que ilustra e indica caminos en la ciudad.

De los músicos que conocí, me acerqué especialmente con Catalina Jiménez Torres, pianista de personalidad impar, que jamás podría describir en la bidimensionalidad de una fotografía. Nos conocimos en el Café Paseo, en la Plaza Aníbal Pinto. Entre un té, una cerveza y algunos cigarrillos, hablamos de nuestras vidas lo suficiente para que yo confiara en ella como comparsa en la meta de aprender a tocar el piano en un mes. Fue Catalina quien me enseñó, sin paternalismos, a apoderarme del instrumento, hacerlo mío, sentirlo, tocarlo. Dejé el universo colorido del arte visual para meterme en un mundo de teclas blancas y negras donde ya no más podía controlar el tiempo, pero obedecer lo que me era determinado. Con las manos tensas y tímidas, aprendí a relajar para que los dedos fluyeran con destreza, adquiriendo la firmeza característica para el sonar de las notas.

Poco a poco, entre caminadas y encuentros, empecé a coleccionar paisajes y retratos a través del sonido. Grabé el ruido de las calles y pedí a los músicos que me compusiesen cinco segundos en compases de cuatro cuartos para que yo pudiera tocar. Como en un juego que aquí llaman el luche, fui recolectando a cada paso un fragmento que, cuando estuvieran reunidos en una sola partitura, representarían una de las muchas posibles lecturas de Valparaíso.

En la dinámica de ser guiada por la sonoridad de los habitantes de la ciudad, conocí a todo tipo de personas, lugares, historias y nostalgias. Estos registros, cuando fueron transcritos a la música, se distanciaron de los pormenores subjetivos de los resentidos, positivistas, de izquierdas y derechas, manteniendo la imagen descriptiva del instante en que fueron grabados. Una vez, en la esquina de Templeman y Almirante Montt, fui obligada a disminuir el paso y girar el cuello porque Claudio tocaba un organillo con su loro Pepe, desacelerándome y permitiéndome distinguir el rostro de las personas que estaban al rededor. En otra ocasión, por la ventana de casa, vi a Jorge tocar el violín en su salón que queda a tan sólo 5 metros del mío. En todos los casos, la música proporcionó la percepción visual del momento, reviviéndolo siempre que suena. La canción estimuló los sentidos, disfrazó la vergüenza y promovió la reunión entre desconocidos. El sonido antecede el encuentro y hace que permanezca la imagen.

Con la transferencia de visualidad a sonido creé El luche, una obra compuesta no sólo por timbres, sino también por la ausencia de los mismos, por silencios y por tantas notas prometidas y que ni siquiera fueron escritas. En ella se encuentran personas y hogares que conocí, entre amigos y amores, fracasos y alegrías, mirantes y paisajes, reunidos en fragmentos disonantes, que no respetan la lógica harmónica de una canción, en pulsos variados dispuestos lado a lado, privilegiando el orden del recuerdo para contarme de nuevo las experiencias que he tenido en esta ciudad. Los aportes se organizan prácticamente solos, evidenciando rupturas y encadenamientos felices en el encuentro de las notas. Cada grupo de compases me lleva al día en que conocí aquél que suena en el piano. Con la colaboración de Catalina, existe hoy una partitura producida en Valparaíso que puede ser tocada en cualquier momento, por cualquiera, en cualquier parte del mundo, y que se queda como el único testimonio físico del proyecto además de estas palabras.

Componer una partitura reuniendo imágenes es como juntar partes de una historia inacabada, imposible de ser reconstituida linealmente. Como en el luche, de casa en casa se tira una piedrecita para llegar al cielo, sabiendo que es necesario volver para recoger la misma piedrecita y seguir jugando. Tocar la obra delante del público, en un teatro con 100 años de existencia, es una manera de contar esta historia inacabada, reverberándola en su sitio de origen, para que pase también a pertenecer a la historia de la ciudad.

Me acuerdo de la melancolía al dejar el tren y reconozco el luto en aquél acto, con lo cual, felizmente, pude dar continuidad a los capítulos de este viaje, que transciende la geografía y se materializa a través de la obra.

Belo Horizonte, 29/8/2012

agosto 31, 2012

por Luiz Roque

Monumento na Avenida Canadá

Valparaíso, 27/8/2012

agosto 27, 2012

por Luiza Baldan

A cabeça divaga. Enquanto traduzo um texto do português ao espanhol, penso no Chile, mas penso em alguém que está em Cincinnati, em outro que de Oslo foi para New Haven, em outras que comemoram aniversário no dia do meu regresso ao Rio de Janeiro e naqueles que ficarão aqui no dia 31 de agosto. Ontem olhei para a sala da minha casa cheia de pessoas queridas e o sorriso me escapou pelo rosto enquanto o coração ficou apertado. Mas entrei no “mode hora de partir” e a aflição é incontrolável, ainda mais sabendo que amanhã apresento o final do meu projeto em Valparaíso. Confesso que já não me aflijo pela execução da obra, porque de alguma maneira já dei o trabalho como concluído. Consegui atravessar tantas etapas nesta estadia que volto para casa cinco anos mais velha e cinco anos mais nova.