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fevereiro 27, 2013

studio uk lenhardt 2

Vim para a Inglaterra com um sentimento de lacuna a preencher, por um tempo desejei desenhar, imaginei que o Gasworks Studio seria o lugar e o tempo em que retomaria e desenvolveria algumas experimentações com desenho.

Chegando aqui, revi por acaso uma entrevista de Clarice Lispector em que, entre outras coisas muito diretas e sem meios termos, disse estar vazia ao terminar um trabalho. Isso me chamou a atenção; e o fato de ela dizer que não era profissional me apaziguou com a sensação de não saber o que fazer, mas saber que não poderia ficar sem fazer nada, porque adoeceria.

Estar esvaziado é como uma onda que passou e levou com ela tudo que a faz agir durante determinado tempo; eu me senti nu, com frio, mas ao mesmo tempo livre. Não tinha obrigações e resolvi amar o nada.

Retomar o desenho foi encontrar uma tarefa simples como desculpa para acordar, tomar banho e ir ao Studio todos os dias.

Agarrar um papel, um lápis, um pincel, e rever o que fazer com os aparelhos de  TV. Então minha rotina foi essa, tentar através do desenho descobrir mais a respeito de PLANALTO, uma ideia/pensamento que venho desenvolvendo com relação à transição entre planos. Observar o teor ambíguo que as proposições apontam e resguardá-las, ou seja, permitir que os sentidos continuem abertos, indefinidos.

Seguindo neste caminho, comprei um The Guardian e resolvi transformá-lo num manto (copiando Lygia), na tentativa de me aquecer um pouco nas primeiras gélidas semanas aqui. Eu o colei-o todo e, inesperadamente, ele se transformou em um quadrado; pintei-o de preto para dar força à forma, depois dobrei três vezes e ele virou um triângulo. Repeti o gesto mais três vezes.

Senti que a passagem de uma dimensão para outra me sugeria volume e desenhei uma espera como projeto, para um dia construí-la em concreto e oca, para que o corpo entre, lá dentro o som da voz reverbere e algo mais aconteça.

Depois precisei criar tramas e grades de desenho como ferramenta de escala ou de estampa — talvez fosse o jeito de tentar entender pela ação  a rigidez da educação inglesa, a noção de compromisso tão cedo aprendida.

Nesse espaço que começava a ser descoberto, outro personagem se manifestou e resolveu espiar e impor sua presença sedutora, negra e peluda, e eu abri a guarda. Isso depois do encontro com a raposa na neve à noite. Sempre é bom ter um bicho à espreita.

Um outro personagem tem corpinho, é boneco, é referente ao plano gráfico descritivo, compartilha a medida dos desenhos, tal como faces que atingem por condições topológicas a grafia de sua própria matéria.

O desenho é todo o campo, campo/tabuleiro, área em branco. O desenho é figura e é projeto, é abstração e é forma.

Cristiano Lenhardt, Londres, 27 de fevereiro de 2013.

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