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agosto 24, 2012

por Luiza Baldan

Belo Horizonte, 21/8/2012

agosto 22, 2012
por Luiz Roque

A primeira pista: uma luva. A primeira pista é sempre falsa

Tenho a impressão que cheguei em um lugar que irá mudar rapidamente.
O Jardim Canadá, na região metropolitana de Belo Horizonte, onde se situa o JA.CA, parece viver o fenômeno chamado BRIC.
O deserto vermelho, como é conhecido, vai ficando menos vermelho. A Avenida Canadá, onde está a sede da residência, foi recentemente asfaltada, deixando a lembrança da rua de terra batida na memória e nos hds dos últimos residentes.
É visível o interesse pelos terrenos baldios disponíveis no bairro. Toda vez que eu dou uma volta pelas redondezas reparo que há sempre empreendedores vasculhando a área em seus gigantes blindados que mais parecem carros funerários de tão grandes e pretos. Pode ser impressão minha, mas acho que não é, existem várias obras em andamento. Claro que também existem os jovens e seus carrinhos com baixas velocidades que estão mais interessados em curtir a paisagem para atividades menos sérias.
A locação, o bairro Jardim Canadá, concentra, ao mesmo tempo, fornecedores da indústria pesada e da decoração (o que inclui algum comércio de arte), tornando essa região em lugar bastante único, com uma singularidade fascinante dos lugares em transformação.
Em uma rápida caminhada no fim da tarde é possível avistar lindas montanhas douradas com uma pequena presença humana aglomerada em sua base, em um ponto de vista a la Mel Gibson em Mad Max. Os pedestres no contraluz (mais abundantes a esta hora, mas não muitos)  não são indiferentes a você, mas tampouco estão super interessados em sua falta de rumo, são trabalhadores.
O posto de gasolina (bem próximo à residência e chamado “Chefão”) é bem agitado durante todo o dia (e noite) e está do lado de uma rede de supermercado-boutique chamada “Verdemar”, que é onde, aparentemente, a classe A compra seu café da manhã (o JA.CA está na rota de acesso à cidade de Nova Lima, destino de grandes condomínios residenciais). O supermercado é realmente ótimo mas o Marlboro Light se compra no posto de gasolina, o que também é ótimo.
Um lugar em transformação te dá a possibilidade de viver situações que, se não são novas, são renovadas ou inventadas. O Jardim Canadá é como uma pequena cidade industrial pacífica, condição que não me parece comum ou fácil de localizar no Brasil hoje. Talvez eu esteja projetando a minha vivência (ou este texto) em algum ponto perdido entre 1950 e 2050 que não o ano de 2012.
E talvez isso seja um filme.

Valparaíso, 16/8/2012

agosto 17, 2012

por Luiza Baldan

Faz um mês que cortei o dedo e a cicatriz não me deixa esquecer. O risco da unha já subiu o suficiente para perceber o tempo que passou. Um mês em Valparaíso, ora inferno ora paraíso.

Preparo uma lista de músicas com a ajuda da maravilhosa dj Tati da Vila. Segundo ela, o brasileiro, quando estrangeiro, sempre vira dj, cozinheiro de feijoada e fazedor de caipirinha. Tirando a feijoada, vou fazer todo o resto numa festa organizada por amigos queridos que fiz nesta cidade, que nessas horas sempre é um paraíso. Tive a sorte de conhecer pessoas muito especiais de verdade que ficarão para sempre na minha vida. Então não me resta outra do que representar meu país em terras portenhas para além dos eventos olímpicos e do Botafogo.

 

 

 

Crédito: Ana Colla

Valparaíso, 9/8/2012

agosto 10, 2012

por Luiza Baldan

A viagem parece ter começado no momento em que o sujeito com nome de ex-marido some, uma bicicleta chega e uma pianista aparece; no bar mais antigo da cidade e entre alguns dos seres mais antigos da cidade, onde um jovem “cueca” o seu violão e a pianista “tangueia” a sua voz; no museu de instrumentos antigos, todos chegados a Valparaíso por mãos de viajantes; na garagem estúdio de música onde o som é capaz de te transportar através das paredes acarpetadas para paisagens longínquas; na caixa de música ambulante guiada por um papagaio; no conservatório de música clássica onde se planeja a eletrônica; no ônibus ambientado como uma discoteca ao som de bandeiras e música brasileira.

Havia uma pedra que foi dinamitada. Existe uma que quero dinamitar.

 

 

 

 

Valparaíso, 6/8/2012

agosto 6, 2012

por Luiza Baldan

Valparaíso, 5/8/2012

agosto 6, 2012

por Luiza Baldan

 

 

 

E me perguntam se é ruína ou escombro e penso na perda outra vez.

Independente de ser memória, patrimônio ou degradação, existe algo de perdido nesses lugares, de uma história que não se localiza, de um sentimento cruzado sobre algo que não está mais ali. Uma presença distante entre pichações, lixo, tijolos e mato.

A aturdida surpresa ao se deparar com a casa depois de ser invadida, violada, violentada, abusada, abandonada. No que ficou, vê-se fotografias reviradas, toalhas pisadas, vidros partidos, poças, papéis sujos, caixas preparadas, restos de fogueira e pássaro morto. Levaram uma televisão quebrada e a pia da cozinha, deixando uma tristeza surda após o quinto assalto consecutivo onde já não havia nada valioso para roubar além das lembranças contidas em mais de sessenta anos de história entre paredes erguidas por familiares de uma matriarca visionária. Império que vai ruindo junto ao tempo e a maresia do vilarejo. Como guardar a imagem dos momentos felizes depois de tamanha agressão?

Quem vê de fora se pergunta se é ruína ou escombro.

Quem não conhece a história não sente afeto, não tem apego, nem coleciona, nem acumula. Rouba e revende para manter a subsistência; incendeia e destrói para abrir terreno onde construir o novo.

Mas a história reside naqueles que ficaram para contá-la.

 

 

 

Valparaíso, 3/8/2012

agosto 6, 2012

por Luiza Baldan

 

 

Não era um pesadelo, mas achei que fosse. Estava em um grande terreno, meio baldio meio depósito de ferro-velho, sendo perseguida por um lenhador que usava um chapeuzinho tipo do “Chaves” (comediante mexicano, não o presidente venezuelano). Eu me escondia em um carro abandonado, enquanto o lenhador me olhava pelo lado de fora. Mas ele não queria me atacar, não queria me fazer mal, queria apenas me entregar um papel. Talvez se fosse um pesadelo de verdade eu tivesse voltado a dormir, mas fiquei tão impressionada com a virada do sonho que não pude mais.

Das coisas curiosas da vida: deixei um professor que se chama como meu pai para encontrar um que se chama como meu ex-marido, justamente quem me ensinou a falar espanhol e por quem carrego para sempre um sotaque catalão.

E me enveredo pelo mundo da música, por piano-bar e clube de jazz, tangueros e cajones, a boemia de Valparaíso.