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Valparaíso, 30/7/2012

julho 30, 2012

por Luiza Baldan

Aqui no meu “retiro valpino” existe o 3G que não serve apenas para amenizar a saudade. A internet me leva de volta para casa diante de um assunto tão presente lá quanto aqui: a gentrificação.

Atualmente vivo em uma zona de Valparaíso que pertence ao corredor turístico instituído pela nomeação de patrimônio cultural da Unesco e que, por mais contraditório que pareça, é excludente. Trata-se de um percurso maquiado bilíngue bastante diferente do resto da cidade.

Pensar em patrimônio é pensar em conservação, em memória, em história, em futuro, mas na prática o que de fato significa uma zona patrimonial? Preserva-se o quê, como e para quem?

Da maneira como as coisas acontecem, o turismo é um vilão. O que poderia servir como gerador de divisas e melhorias para a cidade traz a segregação. Não se trata apenas de recuperar bens, mas em muitos casos de desapropriar o que pode ser melhor explorado, desconsiderando a sobrevivência do patrimônio.

Aqui perto da minha casa havia uma padaria que era a alma do bairro. Com a valorização do preço dos imóveis, virou um restaurante caro do qual muitos moradores não podem sequer usufruir. De uma forma quase violenta, antigos comerciantes e residentes, quando não conseguem se adequar às novas regras, são expulsos, dirigindo-se para áreas limítrofes, muitas vezes favelizadas. E o que seria benéfico para a região, contempla apenas alguns interessados. Resistem os fortes e partem os fracos. E onde entra o poder público nisso tudo? Qual a proteção que o Estado oferece a seus cidadãos para evitar a marginalização em prol do crescimento insustentável provocado pela indústria do turismo? E como a cidade como um todo reage a essas mudanças?

Valparaíso é uma cidade que lembra Havana. Como um lugar de relevância histórica, em um dos países mais ricos da América Latina, pode ser comparado à capital de um país que sofre embargo econômico? Como pode Valparaíso expor suas ruínas como feridas em meio a tanto dinheiro envolvido? Para onde vai tanto dinheiro?

Fenômeno análogo sofre a minha cidade, o Rio de Janeiro, recebendo injeções milionárias, especialmente no que se refere a especulação imobiliária, para “revitalizar” áreas de crescimento potencial. Mas de que modo esses investimentos são feitos? Qual o preço que a população tem que pagar para receber um novo shopping mall, hotel, condomínio de luxo ou rodovia? Mudar para um bairro mais longe onde o aluguel é razoável e perder seis horas por dia no transporte coletivo?

Em Valparaíso ou no Rio de Janeiro, por que as iniciativas especulativas não são direcionadas a imóveis desativados em vez de mexer com a parte viva da população? Por que não considerar um crescimento compartilhado e duradouro, capaz de ser usufruído pela maior parte das pessoas, ainda que o lucro seja menor?

A resposta a gente tem, mas as perguntas ainda incomodam.

Mais uma vez falo de perda, algo que vem me rondando diariamente desde que cheguei aqui. A perda se dá em muitos níveis de compreensão e está presente nesta cidade como um grande patrimônio.

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