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Valparaíso, 23/7/2012

julho 23, 2012

por Luiza Baldan

Banalidades da espera

Abrir os olhos com “Stairway to Heaven” em algum rádio da vizinhança, acabando com qualquer possibilidade de localização geográfica ou temporal de um ser em vigília.

“There are two paths you can go by, but in the long run there’s still time to change the road you’re on”.

Nada pior do que uma frigideira de teflon sem tefal.

Em um país supostamente sem censura, as páginas do jornal online estão bloqueadas. Querem me deixar sem as notícias do futebol e os capítulos da novela. E aqui jaz um brasileiro exilado sem dois alicerces da sua cultura popular.

Quem inventou o telefone de chuveiro?

Dizem que a imagem de uma cadeira vazia simboliza a espera. Não concordo. A cadeira ocupada, quente se pudéssemos senti-la, é a melhor imagem da espera.

É a segunda segunda-feira do mês entregue à espera.

A passagem por esta casa foi o tempo exato para ter toda a roupa lavada e acabar o rolo de papel higiênico. Sobraram dois ovos e meia caixa de leite. O resto dá para levar.

Hora de mudar de novo, tartaruguinha.

Se eu pudesse, chamaria todos os meus amigos para jantar comigo. É tão acolhedor isso aqui que posso sentir cada um dos mais queridos sentados no sofá, tomando um vinhozinho e escolhendo as músicas. Tudo cheira a manjericão e azapas. Estou preparando uma salada com amêndoas, maçã verde e queijo de cabra. Brincando de casinha outra vez, mas agora a sensação é maior do que eu. A porta é muito maior do que eu. Já não tenho frio nem medo. Corro o risco de ficar piegas, mas até a lua entra pela janela. Essas paredes me dão um pouco do carinho que eu precisava tanto. Como no River Raid, estou abastecendo o fuel. Lembrei da Mayra e da nossa viagem em 2010, e como las primas poderiam botar o papo em dia nessa cozinha sensacional. Ela agora é mãe da Claire e mora no Panamá, enquanto eu me reconstruo no Chile.

É impressionante como uma cidade tão pequena pode ter caras tão distintas. Estou a apenas 1km da Iglesia Matriz e tudo mudou de maneira tão radical que é difícil de acreditar. Cerro Alegre é como Santa Teresa em seus prós e contras. Existe a parte mega turística, gentrificada, e o tradicional que sobrevive. Mas o lugar tem graça, as casas decoradas ou adaptadas pelos anos são cheias de vida, e não necessariamente estou falando de hotéis e restaurantes moderninhos, mas de fachadas antigas que coabitam com letreiros escritos em inglês oferecendo de tudo por preços exorbitantes. Estou a cinco minutos a pé de ruas como Pirâmide e Equador, no centrão de Valparaíso, onde mil pessoas caminham e existe trânsito, como em outras urbes. Existe o cheiro de gente e de comércio das mais variadas modalidades. Incríveis lugares de bingo e as típicas “tragaperras”, como se fosse uma mini Tóquio, dividem calçada com farmácias e mercadinhos. E a isso me refiro, de um clima de cidade que dá vontade de andar, de se misturar, mesmo com os riscos que sofremos em qualquer lugar do mundo. Diferente de antes que o ermo não era apenas solitário, era medonho, era fétido, era degradado. Os transeuntes pareciam zumbis que nos seguiam como se de uma espécie rara nos tratássemos. Foi um pesadelo que faço questão de esquecer, ou usar como base de reflexão para pensar essa cidade tão diversa, patrimônio da humanidade pela Unesco por sua vocação cultural. E era bem pouco o que eu precisava para me sentir mais parte deste lugar. Chantal, a dona da casa, por primeira vez me apresentou um mapa da cidade e me mostrou coisas básicas para se viver bem aqui. Ela foi a grande anfitriã de Valparaíso e a ela agradeço a nova fase que começa hoje.

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