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Valparaíso, 22/7/2012

julho 22, 2012

por Luiza Baldan

Sonhava que estava no banheiro, escovando os dentes na presença de um ex-namorado, que recolhia objetos pessoais, e de um ex-ficante, escorado na porta conversando qualquer coisa menor comigo. No quarto dormia Keith Richards. De súbito, soou o sino da igreja como se fosse dentro de casa. Eram 9h e depois 9h15 e depois 9h22, como um alarme de relógio sem ritmo, em soneca programada por Deus, para me tirar do sono e levantar para a vida. Mas não adiantou muito e voltei a dormir, desta vez sem sonhos, sem roqueiros ou ex-amantes.

Quando por fim me levantei já eram 11h. Vi os bêbados tomando sol perto da igreja aberta, entre turistas que se aventuravam no passeio. Enquanto preparava o café, um homem gritava qualquer coisa entre os cães no meio da praça. Com um megafone, ele cantava e pregava a palavra de Deus, falando de Sodoma e Gomorra e da falta de fé que assolava a humanidade. Durante 25 minutos, de costas para a igreja, em busca de fiéis perdidos, o homem orou como um ruído branco na manhã de domingo. Os bêbados continuavam esperando pelo refeitório católico, os cachorros também tomavam sol, os pássaros voavam em bando, as crianças corriam para lugar nenhum e o sino da igreja voltava a tocar descompassado às 11h30, às 11h39 e às 11h47.

 

 

Talvez as preces do anônimo da praça tenham me feito bem. Talvez as conversas via skype tenham me feito bem. Fui conhecer a minha casa nova e decidi aproveitar o dia até a hora do jogo do Botafogo.

O novo lugar é anexo à casa de uma artista local muito simpática. Poderia dizer que o meu apartamento tem uma escala próxima ao atual, um pouco maior, mas infinitamente mais solar. Mesmo não querendo exoterizar o assunto, acredito de verdade que a energia não estava fluindo bem até agora. A minha esperança é que as coisas mudem a partir dessa semana.

Fui correr às margens da baía até o caminho que leva a Viña del Mar. Parei para comer alguma coisa num bar que tocava Nat King Cole, as músicas do meu pai, e por coincidência o garçom se chamava Carlos, assim como meu pai. Continuei percorrendo a pista litorânea do porto até encontrar um trem abandonado onde tocava um piano de um senhor chamado Carlos. O único piano que toquei na vida era do meu pai. Agora tenho a chance de fazer aulas de piano à beira mar pensando no meu pai, o mesmo pai que me apresentou o porto e a vida dos pescadores.

 

 

 

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One Comment leave one →
  1. Rafa permalink
    julho 23, 2012 3:26 am

    Feliz pelo texto, pelos encontros e conexões que você descreve e por ver as suas fotos, arrebatadoras, à sua maneira, como sempre.

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