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Valparaíso, 21/7/2012

julho 22, 2012

por Luiza Baldan

Resolvi começar um projeto fotográfico no lugar onde estou hospedada. Se não me sinto segura para sair com a câmera na rua, preciso vencer o ostracismo de alguma maneira.

Percebi que, na ausência de hóspedes, a família de três mulheres que toma conta desse alojamento ocupa muitos quartos, para não dizer todos, nas mais diversas finalidades: varal de roupas, quarto, armário, sala de jogos, cozinha, sala de tv. Lembrei-me de quando era pequena e fazia o mesmo nos quartos desocupados pelos meus irmãos que não moravam mais em casa.

Hoje entrei em todos os quartos, 11 no total, observando os detalhes da construção, da decoração e das intervenções feitas pelos inquilinos. De copos vazios a retratos, de roupa suja a roupa limpa, de tênis a bonecos, de cabides a cobertores, de tudo um pouco encontrei pelo caminho.

Convidei Maria José, 15 anos, filha de D. Lela e tia de Angelita, para me mostrar os quartos e ser fotografada nos locais de sua escolha. A cada apartamento, ela me contava um pouco da vida. Faz apenas dois anos que parte da família Morgado voltou para o Chile. Percebo que o desejo de todas é regressar a Nova Iorque, especialmente a adolescente que no próximo ano ingressará no high school e aspira torna-se médica. Em todos os retratos que fiz, Maria José aparece com seu telefone celular conectado ao facebook. Ela mora aqui com a cabeça lá. Mesmo durante as férias do colégio La Salle, a menina passa grande parte do tempo em casa, comunicando-se com os amigos da Big Apple. Por vezes até pensei em conversar com ela em inglês, que é praticamente a sua primeira língua, mas desisti, talvez por “respeito” à terra-mãe onde nos encontramos. Mais tarde observei que Maria José e Angelita se falam em inglês com um sotaque perfeitamente americano. Disseram-me que vieram para o Chile porque D. Lela sentia falta de casa, mas talvez as causas tenham sido outras, e o plano é voltar para os Estados Unidos em breve. O fato é que todos aqui estão de passagem, não apenas eu.

D. Lela preparou um delicioso almoço para todas nós, incluindo D. Sergio, seu companheiro. Eu fui comprar o vinho e, em apenas 5 minutos do meu retorno, outra menina foi assaltada no bairro. Só vi da janela o povo correndo e gritando, igualzinho aconteceu comigo na quarta-feira. Eu que tinha planos de ir à Plaza Victoria com as meninas, desisti. Não voltei a sair de casa desde então. Estou numa espécie de cativeiro, congelada de frio e medo, e me arriscaria a dizer que não sou a única nesta situação aqui dentro. Assim como as meninas, também fico me comunicando com pessoas em outros países, numa espécie de refúgio alternativo para a impotência em que me encontro.

Enquanto o pessoal do CRAC pesquisa a gentrificação em Valparaíso, sinto-me a própria cobaia em sentido inverso dos estudos. Hoje me animo a dizer que estou sonhando com a parte gentrificada da cidade onde pelo menos possa me sentir mais à vontade e confortável para transitar nas ruas. Conto os dias para a mudança de casa para não ter que contar os dias de regresso à minha casa.

[El nieto de Doña Lela, Mike Morgado, un superstar]

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