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Intervalo antes do fim

julho 5, 2010

22/06/2010
impressão tipos gráfica. deixá-los vivos e iluminados, longe da atividade e das prensas são pequenos tocos de madeira com desenhos que mais parecem trilhas de cupim, nada muito visível, antes de rolar a tinta e bater o carimbo no papel. Uma tarde de pequenas maravilhas.

23/06/2010
Quase 15 anos depois voltei à Santiago. Essa cidade que um dia coloquei na cabeça que queria morar e estudar. À principio, foi aquele choque entre o movimento mais brando e de rostos conhecidos de Valparaiso e o tranco da metrópole.

24/06/2010

Quase não saí da cama. Estava frio e tinha um pouco de dor de cabeça, e intimamente me esquivando de ir até a gráfica e mexer com tinta. Consegui sair para almoçar no vegetariano, já que uma overdose de mariscos no mercado central de Santiago fez com que, novamente, eu repenssase minha dieta. Ainda estava um pouco baleado depois do almoço, por isso resolvi voltar ao DUC e talvez dormir mais. Infelizmente, sou caxias e chegando no apartamento, recobrei a consciência e me empurrei até a gráfica, o que foi bom, já que amanhã tem jogo do Chile e na segunda é feriado religioso.
Chegando lá, pedi ao Rolf que me apresentasse o ‘cajista’, um senhor baixinho de óculos e dentes tortos, muito simpático. Sr. Juan (sobrenome) deixou de trabalhar na tipografia da Victoria em 1985, o que ficou explícito na falta de prática com que catava as letras na caixa de distribuição alemã. 2 horas, duas linhas. Nada animador, porém a conversa valeu a pena, registrar esse sentimento que fica impregnado no impressor, no trabalhador artesanal que com muito esforço e concentração constrói algo delicado e potente.

No final do dia, conversei com Rolf sobre a dinâmica e o que seria possível em termos de custo nesse ritmo. Ele me disse: “Ele não era o ‘cajista’principal, o outro muito bom era surdo-mudo. O que era um problema e uma vantagem pelo nivel de concentração que mantinha para compor os textos”. Conheci uma vez um rapaz surdo-mudo que era mecânico. Foi o melhor sujeito que mexeu no fusquinha que tínhamos em São Paulo.

25/06/2010

Dia de futebol, pela manhã vi a seleção sem meio campo, sem laterais, sem ataque. Se não fosse o goleiro e os beques, estávamos fufu…Por aqui, vale mesmo é torcer pelo Chile, gritar no restaurante, pelas ruas ficar rouco a cada jogada perdida. Estão jogando com raça e muita vontade, mesmo depois da derrota a classificação foi comemorada como final de campeonato. Assisti o 2º tempo no Liberty, o bar mais antigo aqui do porto (1897). Lá, juntam-se os universitários descolados, os bêbados, vadios, perdidos e o único travesti ruvio caracoles da praça Echaurren, todos muito bem cuidados pela dona fazendo questão de que estejam em casa. Fiz uma breve caminhada até o porto, de onde saem os barcos para o passeio turístico da baía. Ficou um pouco, arrependido de ter saído sem o caderninho de desenhos, aproveitei para comprar um gorrinho tipo ‘peruano’ para Flora. Laranja vivo, muito lindinho.

26/06/2010

Trabalho pela manhã e almoço na casa da Paulina e José.Foi tudo muito gostoso e passamos a tarde inteira conversando: politica, futebol, música, perspectivas de trabalho. Comemos cuscuz marroquino, cogumelos e broto de feijão, espinafre e empanadas de marisco defumado. Vinhos tintos: Trape, Oveja Negra, Misiones, Carmen, melhor relação custo/benefício.

27/06/2010

Começo pelo fim de tarde no paseo Altamirano que segue para Playa Ancha. Escolhi um lugar e parei para ver o sol descer tranquilo no Pacífico, golfinhos aos montes, lobos marinhos e pelicanos disputavam um cardume a 500 metros do paredão de pedras onde estava. Cada salto dos golfinhos era uma injeção de alegria, dava vontade de bater palma, gritar, assoviar e dizer que não existe nada mais pleno do que a vida animal se manifestando, atestando nossa condição de criaturas terrestres. Com o sol caminhando para o outro hemisfério, engatei uma conversa com Hector, um menino de 11 anos que acompanhava o pai motorista de ônibus em um domingo de trabalho. Vieram de Santiago para trazer um grupo de turistas até Valparaíso.

As manhãs de domingo na praça da Igreja Matriz são imprevisíveis. Primeiro passou uma fanfarra tocando Yellow Submarine, depois chegou um grupo de flautas, depois outro maior e com metais trombones, trumpetes, e aí varios outros dançando e cada um querendo tocar mais alto que o outro, todos dividindo o espaço da praça. Desci de chinelos, café e pão na mão para aproveitar a babilônia instaurada.

Dali, os grupos seguiram até o porto onde ficou tudo claro , já que na praça faziam o aquecimento para procissão e depois a apresentação de cada um dos grupos em uma grande roda. A fanfarra realmente representa o estado, a ordem, a beleza da exatidão e concentração onde tudo tem um lugar e nada é devaneio, já os grupos eram o povo, pagão, esforçados, alegres, descontraídos, satisfeitos e sorridentes com a música que produziam descompassada, atropelada e espontânea. Pareciam duas manisfestações complementares: uma opressiva e exata e a outra delinquente e porosa.

Na casa do escalador …/

Um museu de peças encontradas em diversas alturas,8500, 6000, conchas petrificadas, cristais de quartzo e agata, flechas em predra talhadas com delicadeza, lascas com escrituras ancestrais de uma beleza sem igual, o céu desenhado com liquén verde claro sobre uma pedra negro azul profundo. O apartamento era uma instalação de vida. O que estava lá, era o que precisavam para trabalhar em altura limpando prédios, cortando árvores, tudo é equipamento e as roupas, os objetos estão bem colocados quase que provisórios, uma ocupação treinada em alturas sem ar.

28/06/2010
Na praça Echaurren, os cachorros, assim como os perdidos tem nome e são bem cuidados pelos comerciantes.
O resto foi o misto de frustração e resignação dos chilenos depois do jogo.
Fui até a saída dos barcos de passeio no porto para desenhar um pouco.

29/06/2010
Dia  de montagem na gráfica. Todos querendo fazer uma brincadeira ou outra com o brasileiro no pós derrota da Copa do Mundo.
Encarei eu mesmo a composição e foi uma tentativa acertada, já que o Juan estava ‘catando milho’ e lembrando sempre das letras que esqueceu quando deixou  a seção da tipografia em 1985. Fui anotando letra por letra na caixa de madeira no sistema alemão, que me pareceu mais ágil que o francês/inglês. Forçando a vista, percebi que um outro já havia feito a marcação em algum momento da história da gráfica, uma letra meio apagada, já de muito tempo..
Consegui montar 3 parágrafos, o que é um enorme avanço diante das duas linhas montadas pelo Juan na semana passada. Troquei também o tipo por um corpo menor.

30/06/2010
Gráfica. Gráfica.

escritura ancestral

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